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O humano na História

Elisa Marconi e Francisco Bicudo
Publicado em 27/5/2011

Em 1991, quando fundou o Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO), o professor da Universidade de São Paulo José Carlos Sebe Bom Meihy talvez não imaginasse que, apenas alguns anos depois, os encaminhamentos metodológicos adotados por aquela área nova e bastante incômoda para a historiografia tradicional seriam capazes de encantar e de entusiasmar professores de ensino fundamental e médio, além de fomentar inúmeros projetos de resgate de memórias de bairros, comunidades, famílias – diversificando e humanizando assim as narrativas históricas. O segredo do sucesso parece ser o fato de essa grande área de produção do saber possuir características peculiares muito especiais que democratizam (ou, ao menos, buscam democratizar) o jogo de construção da História (ou das Histórias).

Suzana Lopes Salgado, pesquisadora do Núcleo criado por Sebe, explica que, embora o termo História Oral tenha se popularizado, para que um estudo esteja contido nessa grande área é preciso seguir uma série de requisitos e não se afastar da função histórica que a iniciativa deve ter. Ou seja, há critérios e métodos – e não opções aleatórias ou casuais. A primeira grande diferença da História Oral para as ditas modalidades mais tradicionais da disciplina está no próprio nome. Um historiador oral busca não apenas nos documentos impressos, majoritariamente aceitos na academia, as informações para produzir sua reflexão histórica.

Ousadia para a academia

“Fundamentalmente, nosso documento é a fala, a expressão oral e a performance de alguém que tem uma história para contar. Em geral, alguém que nunca teve sua história, ou seu ponto de vista ouvido, respeitado”, ensina a professora e doutoranda em História pela USP. Parece pouca coisa, mas não é. Mudar o foco da escuta para os perdedores, para as pessoas comuns, para os anônimos, para as vítimas das mudanças, para quem apenas testemunhou é uma verdadeira ousadia ainda não totalmente aceita pela academia.

“Os historiadores e outros pensadores mais tradicionais têm dificuldade para aceitar que o depoimento, a entrevista concedida por alguém comum possa ter o mesmo valor de um documento oficial lavrado em cartório, mas nós estamos mostrando que tem sim”, defende Suzana. Para alcançarem o respeito dos pares na Universidade, os pesquisadores do NEHO desenvolveram uma metodologia própria e um conjunto de procedimentos e posturas apoiados nos estudos similares realizados no mundo.

Para esse grupo, os depoimentos dados a entrevistadores são o principal documento, mas qualquer manifestação oral – como trovinhas, músicas, piadas – também tem um lugar de destaque. “Também no NEHO a gente concluiu que o depoimento é o grande momento do personagem daquela passagem histórica. É nas respostas às perguntas que fazemos que a pessoa comum pode contar o que aconteceu e como aconteceu a partir de seu ponto de vista. É uma escolha respeitada, portanto”. E se ele mentir, ou carregar nas tintas de uma certa passagem? “Não cabe ao pesquisador, na hora da entrevista, ficar se colocando contra, duvidando, ou cobrando a verdade. Nas outras etapas do trabalho ele pode questionar o que foi relatado e tentar entender porque para aquela pessoa, que pertence àquele grupo, é interessante contar a história de outro jeito, diferente do que pode ser comprovado”, propõe.

Consequências sociais e políticas

Sugerir nova fonte principal não é apenas uma mudança metodológica. É uma postura política, ideológica, de dar voz a pessoas e grupos que, de um modo geral, não tiveram suas histórias contadas pela historiografia tradicional. “Ser sujeito da História dá ao cidadão comum o mesmo status daquele que pertence às elites e que é reconhecido como agente histórico efetivo. Ambos passam a ter o mesmo valor para a História”, explica.

E dar voz a esses grupos até então ignorados ou pouco contemplados certamente traz consequências sociais e políticas. Para a pesquisadora do NEHO, muitas políticas públicas que vemos hoje têm, na origem, um trabalho de História Oral, ou procedimentos ligados à pesquisa em História Oral. “Ouvir o que uma comunidade tem a dizer e fazer essa informação dialogar com dados objetivos tem se mostrado um bom caminho para se propor políticas públicas que atendam mais efetivamente aos anseios dessas pessoas”, continua Suzana.

E por conhecerem essa possibilidade, os historiadores orais preferem estudar grupos ou passagens renegados, esquecidos, incômodos, calados. “É uma história engajada, não tem outra maneira de explicar”, assume a pesquisadora. Do ponto de vista das comunidades estudadas, a sensação é a mesma. A historiadora conta que, como a História Oral vem sendo empregada para a construção de diagnósticos, a população passa – por um lado – a se ver de outra maneira, ampliar sua auto-estima; de outra maneira, começa a confiar nesse método como caminho para conquistar políticas públicas.

Há 5 ou 10 anos, os pesquisadores do Núcleo de Estudos em História Oral da USP pouco ouviam falar ou tomavam conhecimento de projetos realizados em escolas, baseados nessa área do saber. Hoje, garante Suzana, o cenário mudou. Muitos professores estão adotando os procedimentos da História Oral para resgatar as memórias das famílias dos alunos, da escola, do bairro e até da cidade. Os produtos apresentados pelos estudantes variam muito, mas, de um modo geral, conta a pesquisadora, mostram grande envolvimento e, nos casos mais felizes, retratam mudanças na História e na estima que a comunidade tem por si mesma.

Suportes teóricos e metodológicos

Olhando para essa transformação de realidade, a professora Marta Gouveia de Oliveira Rovai, doutoranda em História Social e coordenadora do NEHO, ao lado da colega Suzana Lopes Salgado, resolveu apresentar um curso no SINPRO-SP para professores de todos os ciclos, sobre a História Oral e sobre como ela pode fazer parte das aulas. “Estamos imaginando que existam tanto educadores com uma pequena experiência em História Oral – mesmo que trabalhando de maneira intuitiva – quanto aqueles que se interessam, mas jamais aplicaram na prática”, levanta Suzana.

Marta garante que os procedimentos podem ser apropriados pelos professores de qualquer área. “Tudo depende do projeto que se crie a partir das discussões realizadas. E o curso oferecido pelo SINPRO-SP dará suportes teóricos e metodológicos para praticarem história oral na escola. Experimentar o processo de construção de um projeto, de colaboração, mediação e transcriação é importante, mais do que só teorizar”, completa.

Além de ampliar os repertórios para ensinar em sala de aula, o professor que se embrenha num projeto de História Oral pode ganhar ainda outras habilidades. Como a prática dessa modalidade de pesquisa promove uma aproximação com determinadas posturas políticas e ideológicas, o olhar do educador pode passar por transformações. Essa metodologia pressupõe respeito ético, negociação, mediação constante e, portanto, posicionamento do pesquisador, do professor, da escola, ou da comunidade. Justamente por isso, a coordenadora do NEHO conta que é comum acontecer de, no meio do processo, o docente repensar quem é e qual é o papel do sujeito histórico, da experiência, da memória e não apenas os conceitos já estabelecidos pela ciência.

“Eu diria que em História Oral trabalha-se com a razão humana, mais do que com a razão técnica”, resume Marta. Em contrapartida, os alunos – mais frequentemente os de Ensino Médio, mas os de Fundamental também – recebem bem, se envolvem e se encantam com as narrativas que colhem nos projetos de História Oral. Para concluir, Marta ensina que “os estudantes aprendem que escutar é muito importante, desenvolvem postura respeitosa e ética e humanizam a própria história”.

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