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Entrevista com o filósofo Vladimir Safatle



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Até bem pouco tempo, a atenção do mundo se voltava para os movimentos que se convencionou chamar de “Primavera Árabe”. Agora já não podemos mais dizer que a questão está circunscrita àquela região geográfica. Como o senhor analisa essa onda de manifestações que já alcançou o Chile, Inglaterra, Israel...

Desde o início do ano temos manifestações populares ininterruptas. Tivemos as manifestações no mundo árabe, os indignados da Espanha, na Grécia, depois tivemos no Chile, podemos colocar os acontecimentos de Londres – se não fosse uma explosão de violência muito diferente dos demais casos. Mas uma coisa é certa: você tem agora uma mobilização que toma de novo as ruas. E todos esses casos têm características em comum. São manifestações para além dos partidos, não são comandadas por estruturas partidárias, ao contrário. Uma das pautas clássicas dessas manifestações é o esvaziamento do campo político-partidário e uma exigência de democracia real. Todas elas são manifestações que expõem a fragilidade da estrutura socioeconômica atual e o caráter inaceitável das propostas socioeconômicas que estão em circulação hoje e que são efetivadas pelos governos. Tudo isso eu diria que são indícios muito fortes de um primeiro momento de reordenação política que deve acontecer em cerca de cinco anos.

Está muito perto então, professor. Cinco anos é muito perto.

Veja, você tem muitos indícios, um desencantamento social muito forte, quando você não acredita mais que o governo poderia encontrar rapidamente uma solução para os seus problemas sociais e econômicos; você não acredita mais também no jogo político partidário a dar vazão a múltiplos modelos de solução. E esse desencantamento sempre foi o motor das grandes reformulações no campo político. E ele está em pauta novamente. Então não há nenhuma razão para não acreditar que devam acontecer transformações nos próximos cinco anos.

Mas até muito pouco tempo acreditava-se que essa era uma juventude acomodada, que vivia num tempo de acomodação histórica, em que as grandes disputas não tinham mais espaço. Mas o que vemos é exatamente o oposto, uma juventude que tem até descaso por essas previsões...

É uma prova de que essa ideia de que haveria uma estabilização no mundo ocidental no que diz respeito às possibilidades do político, como se pudesse haver um grande acordo sobre ideia de democracia, liberdade, segurança social, que tudo isso estaria garantido pelos mecanismos já alcançados no mundo ocidental, caiu por terra. Esses descontentamentos estão acontecendo no cerne de alguns países centrais no mundo desenvolvido. Espanha é um exemplo clássico, o descontento na França – que com certeza ainda vai gerar muitas manifestações – e os atos que aconteceram na Inglaterra não são apenas simples atos de violência.

Aliás, essa é uma versão que vem sendo difundida, que os ataques seriam obra de gangues dos subúrbios.

Isso está acontecendo também, mas não é só isso. (Friedrich) Hegel, o filósofo, na Filosofia do Direito, em 1821, falava do advento do chamado populacho, da ralé, que era essa grande massa da população que não se sentia mais concernida pela estrutura normativa da vida social, porque não esperava mais nada dessa vida normativa. Por não se sentir mais concernida ela se via como para além de qualquer norma, numa situação de anomia. Essas manifestações mostram exatamente isso. E é engraçado porque ele falava a respeito das manifestações que aconteciam exatamente em Londres em 1821. Voltamos para uma situação típica do início do século 19, que é um contingente da população que está totalmente excluído de qualquer possibilidade de amparo do Estado. Todos acompanhamos como o governo inglês reduziu o orçamento social nesses bairros que estão passando por violências, os clubes públicos ali que eram 13, hoje são cinco. A Inglaterra colocou na rua 400mil funcionários públicos, gente que atuava na saúde, na educação, na assistência social. Esperavam o quê? Que as pessoas fossem ficar aplaudindo? Que seriam resignados? Esses jovens se sentem excluídos da vida social e da perspectiva da vida social. Então eles partem para uma violência pura e simples. É uma violência de vandalismo, ninguém diz o contrário, mas a pergunta é: fazem isso por quê? São por essência vândalos? Acho esse dado interessante porque esse tipo de reflexão também é típico do século 19, que é transformar problemas socioeconômicos em problemas morais, o discurso fala em um bando de marginais. Porque a questão social você tem como agir e resolver, mas um problema moral não. Só que não é isso. Essas pessoas não teriam esse comportamento em grande medida se existissem condições socioeconômicas completamente diferentes.

Mas a gente ainda não vê novos líderes, ou novos ideários...

Isso é muito normal. A primeira coisa que o povo faz, já dizia Maquiavel, é dizer não. E o que essas pessoas todas estão fazendo é o que sempre fizeram: dizer não. Eles não têm ainda uma proposta, mas nunca tiveram. Quando se consegue mobilizar essa gente toda para algum tipo de proposta concreta são sempre processos em que a classe intelectual tinha alguma função nesse sentido. E o que é interessante é que eles não têm liderança no sentido tradicional do termo, mas têm propostas bem claras. Por exemplo, as manifestações no Chile são por educação pública e gratuita. Em Tel Aviv. Israel, são contra o preço dos alugueis, pela reconstituição do Estado-Providência. No fundo, no fundo, há propostas muito claras. Na Espanha, uma das questões reivindicadas é que a democracia parlamentar não dá conta e não consegue estar além das intervenções do aparato econômico-financeiro, então é preciso repensar o funcionamento institucional da democracia. O que mais se pode esperar do povo? As indicações estão muito concretas. É claro que ele não vai ter as especificidades técnicas para dizer o que tem de ser feito, mas se nem os políticos têm...

E, na verdade, é ao criar essa demanda que vêm as propostas...

Exatamente. É assim que acontece. Você tem um descontentamento dirigido a algumas questões e é a partir disso que se constituem as coisas, as propostas.

O senhor afirma no artigo que as pessoas vão às ruas não apenas pela derrocada do neoliberalismo, elas gritam e chamam por um mundo que nem elas sabem qual é. Arrisca dizer que mundo é esse?

Essas são as coisas mais fantásticas da História. Os grandes gestos são feitos por pessoas que nem imaginam o que realmente fizeram. O movimento da História não é determinado pela intencionalidade dos agentes. É uma ideia clássica que faz todo o sentido agora. As pessoas não sabem o que estão fazendo, mas com certeza estão abrindo uma nova possibilidade de outra dinâmica no campo do político.

E o senhor consegue ver o Brasil nessa história? Como os brasileiros vão responder?

Olha, boa parte dessas manifestações se associa de alguma maneira com a crise econômica, com o desemprego e com a redução da presença do Estado na economia e na vida social mesmo. Aqui a gente passa exatamente pela situação contrária. Já é quase um ponto pacífico que qualquer crise econômica vai atingir o Brasil de forma mais branda que aos outros países, o que – diga-se de passagem – é algo totalmente inusitado. É a primeira vez no mundo, na história brasileira, que isso acontece. Isso, de uma forma, arrefece a força das manifestações sociais, por certo tempo. Até porque a gente está numa situação em que não temos oposição, nem de esquerda, que é raquítica, nem de direita, que é totalmente desacreditada. Não se consegue colocar em circulação um modelo alternativo ao do governo. E enquanto a gente não conseguir produzir esse modelo, mesmo que seja incompleto... O que está acontecendo no Chile é isso, eles estão colocando a questão da educação pública, gratuita e de qualidade como questão fundamental e conseguem mobilizar pessoas por causa disso, produzir uma causa de mobilização. Porque essa não é só um problema ligado à formação. É uma questão econômica. As pessoas esquecem isso. Veja só, a nova classe média, que está colocando os filhos em escola privada, gasta fácil 800, 900 reais com escola por mês. Ele ganha 3.500 reais e gasta um terço com educação. Logo, por uma série de motivos, essas famílias vão perceber que a educação pela qual pagam tão caro é de baixa qualidade e que estão jogando esses 800, 900 reais, fora. Enquanto essa classe estiver em ascensão, tudo bem. O problema é que o crescimento vai chegar num teto e as pessoas vão se perguntar por que pararam de crescer. Rapidinho vão perceber que se pudessem dispor daqueles 900 reais de novo... Não há nenhuma redução de imposto que traga um benefício desse tamanho e aí poderiam voltar a crescer. Esse dinheiro seria todo jogado no mercado, na economia, porque quem ganha isso não poupa, nem faz investimentos, nem manda para o exterior, gasta na economia mesmo. Portanto, mesmo do ponto de vista mais tacanho, essa prevalência da educação privada no Brasil é inexplicável. Na hora que essa classe média perceber, e não demora muito, quanto está sendo roubada com escola cara e de má qualidade, plano de saúde mafioso e etc., e vão se perguntar por que o Estado não oferece alguma coisa de qualidade. Aí pode ter um momento forte de mobilização no Brasil.

Professor, para encerrar, o senhor coloca lá no seu artigo que quem não ouvir as vozes do mundo novo que surge será engolido junto com o mundo antigo. E então: quem de nós será devorado por esse mundo que vem surgindo?

Aqueles que se apegam à ideia que o Estado Democrático de Direitos que nós temos é intocável, que não compreendem que a democracia parlamentar tem limites e que não é a figura final da Democracia Real. Aqueles que são incapazes de compreender que os preceitos fundamentais do liberalismo econômico foram por terra, que não é possível pensar em nenhuma política de distribuição de renda, de justiça social, política de igualitarismo sem o papel efetivo do Estado, isso vale inclusive para certos setores da esquerda que entendem o Estado como um aparelho de classe. Estão equivocados também. A história do século 20 mostra que em muitas situações foi graças ao Estado que conseguimos ter a amplitude necessária para minorar problemas de desigualdade. Essas coisas vão se recolocar dentro do circuito de debates e aqueles que não compreenderem isso vão ficar dentro de um mundo que não existe mais.

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