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Andar com fé

Elisa Marconi e Francisco Bicudo
Publicado em 2/9/2011

A edição 2008-2009 da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada há dez dias, traz informações socioeconômicas importantes e que chamam a atenção quando o assunto é especificamente a religiosidade dos brasileiros. Destacam-se à primeira vista, por exemplo, as mudanças de opções religiosas (fiéis que migram para outras crenças ou até mesmo para religião nenhuma). Ainda segundo o trabalho, pela primeira vez desde que levantamentos dessa natureza tiveram início, os católicos representam menos de 70% da população do Brasil (são cerca de 68%).

Outro número que merece um olhar mais atento está relacionado ao crescimento dos evangélicos (tradicionais e neopentecostais) e à ampliação do grupo que se intitula sem religião. Também recentemente, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) anunciou o novo “Mapa das Religiões no Brasil”, estudo coordenado pelo economista Marcelo Neri, professor da instituição. Os dados revelados pela pesquisa se assemelham em vários pontos ao que foi constatado pelo IBGE. Os dois levantamentos foram matérias de revistas semanais e chegaram às manchetes dos principais jornais do país, reforçando que o assunto religião segue como um importante tema da agenda pública de discussões nacionais.

Entrevistado com exclusividade pelo SINPRO-SP, o sociólogo Dario Rivera, professor da pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), defende logo de início que, embora os números da POF e do mapa da FGV sejam significativos, eles não representam exatamente grandes novidades. “A diminuição suave no número de católicos, o aumento discreto na quantidade de pentecostais, e o fortalecimento do grupo dos sem-religião já eram tendências detectadas no Censo de 2000 e na POF de 2003”. Na verdade, ainda de acordo com Rivera, as informações divulgadas são muito recentes, de forma que não é possível traçar diagnósticos mais aprofundados a respeito dessa migração. “A bem da verdade, é pouca gente mudando de um grupo para outro”, reforça.

“Experimentação religiosa”

Talvez mais importante que a chamada “experimentação religiosa” – quando um fiel vai beber na fonte de outras religiões e, eventualmente, acaba ficando na nova igreja – seja a compreensão dos significados da secularização. A palavra remete à perda de importância paulatina que a religião, ou as crenças e valores religiosos, têm na vida das pessoas. Ou, em outras palavras, crer num deus e acompanhar a instituição que se organiza em torno dessa entidade vem deixando de ser um fator que pesa no momento de tomar decisões, escolher caminhos, experimentar novas possibilidades. “Esse não é um fenômeno brasileiro, é mundial e reflete o tempo em que vivemos, a sociedade que somos, que dá menos valor às determinações religiosas”.

Agora, se a migração entre religiões é um fato – as pesquisas sugerem e o sociólogo da religião reconhece isso – a pergunta que se deve fazer é: por que tal movimentação acontece e como esse trânsito afeta a vida do país? A imprensa tende fortemente a atribuir essa migração à situação socioeconômica dos fieis. Grosso modo, essa narrativa defende que, quando as condições de vida vão bem, as pessoas buscam religiões – ou alas – mais liberais, menos radicais. Quando as coisas não vão muito bem, com crise econômica, falta de emprego, orçamentos apertados, a tendência é que os fiéis caminhem ao encontro daquelas igrejas que prometem resolver todas as mazelas terrenas, fortalecendo vínculos entre o crente e a entidade. Isso ajudaria a explicar o aumento dos frequentadores dos templos neopentecostais, como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, nos anos 1990, período de pequenino crescimento econômico – mais uma “década perdida”.

Esse argumento também explicaria o retorno à antiga igreja por parte de alguns fieis, que as pesquisas agora detectaram. “As análises que li sugerem que economia mais estável e melhores condições de vida estariam deixando os religiosos menos preocupados e, portanto, poderiam voltar às suas igrejas de origem, em geral, mais tradicionais e menos míticas”, comenta Rivera. Realmente os dados computados permitem essa interpretação, mas é aí que, avisa o professor, entra a tal análise em profundidade, para além dos números, que reflete sobre o que a estatística não pode medir. “Se o fiel mudou nos últimos 20 anos, a igreja também mudou, até para trazer de volta seu ex-fiel. Os cultos ficaram mais lúdicos, mais mágicos, mesmo nas igrejas evangélicas mais tradicionais e isso atende aos desejos do público”, completa o docente da Universidade Metodista.

Em direção ao conservadorismo?

Seria então tal movimento um reflexo de uma guinada em direção ao conservadorismo que se tem observado? A sociedade estava sentindo falta desse discurso mais antiquado e encontrou isso nas novas alas e formas de manifestação da religião? Rivera destrincha lentamente as questões. Primeiro, ele reconhece que a onda de conservadorismo existe mesmo, mas, para o pesquisador, não representa a maior parte dos fieis ou dos líderes religiosos. Depois, o trânsito entre religiões para encontrar essas proposições mais antigas se deve também a questões endógenas. Ou seja, à propaganda que as igrejas fazem, à concorrência entre as igrejas, às novidades nas liturgias e ao atendimento mais rápido das necessidades apresentadas pelos fieis. E, segundo o sociólogo da religião, essas palavras agradam a uma parcela da população. Mas existem ainda outras questões externas ao universo das igrejas. Rivera lembra que a imprensa escolhe suas pautas e agenda, e a religião, ou as religiões, sempre voltam à cena, são assuntos frequentes. O que, nesse grande cenário, será identificado, divulgado e até inflado midiaticamente é parte de uma estratégia maior, que vai da vontade de vender mais jornais até a necessidade de estar afinado com o discurso de alguns grupos de poder.

O pesquisador continua seu raciocínio e diz que, de tanto acompanhar na imprensa que o conservadorismo vem crescendo, ganhando espaço, que o catolicismo está em decadência (com exceção das alas mais conservadoras), que novos líderes tão radicais quanto reacionários estão em evidência, a sociedade realmente acredita e passa a levar o assunto mais a sério que deveria. A imprensa no Brasil e na América Latina (o professor é peruano e conhece essa realidade nos países vizinhos) faz muita força para não dar voz aos atores que defendem a relativização dos valores religiosos. Por isso a informação destacada nas pesquisas é a queda dos católicos e não o aumento dos sem-religião, que já vinha se apresentando desde 2000, no Censo. Mais: a mídia latino-americana defende que o mundo precisa urgentemente resgatar alguns valores do passado, que estão em falta na sociedade e garantiriam um mundo mais organizado. Ele reforça: não é que a onda conservadora não exista ou não mereça atenção, “mas ela não é hegemônica, como se pinta. Amplificar o valor dos conservadores atende a interesses da imprensa, mas há outros movimentos crescendo e se destacando”, garante Rivera.

O sociólogo lembra da Jornada da Juventude, um mega-evento realizado pela Igreja Católica que, este ano, aconteceu em Madri, na Espanha. O discurso do papa Bento XVI diante dos dois milhões de jovens participantes foi bem duro e bem forte no sentido do conservadorismo. Por outro lado, “também acontecia o que podemos chamar de lado B da Jornada, que era a farra que os jovens promoviam nos acampamentos; e ainda o perdão coletivo às mulheres que abortaram, atitude impensável no âmbito do Catolicismo há dez anos”. Além disso, a não observância às determinações da igreja continua aumentando: o número de divórcios cresce, os casamentos religiosos diminuem, a opção pelo não planejamento familiar é muitas vezes ignorada, cada vez mais países permitem o aborto e o casamento entre homossexuais. Trocando em miúdos: na opinião do professor, portanto, embora as religiões tentem e a mídia encampe, “o conservadorismo não tem sido eficaz como se prega”.

Ainda sustentando essa discussão, as pesquisas oferecem informações importantes a respeito de posturas e escolhas dos jovens. Por um lado, foi entre os brasileiros de 10 a 19 anos que cresceu mais a opção “evangélico não praticante” ou “sem religião” (pessoas que crêem, mas não se vinculam a igreja alguma); por outro lado, um grupo importante de jovens vem optando pela castidade e por seguir os preceitos religiosos à risca. Rivera aponta um paradoxo aqui que, mais uma vez, apenas os levantamentos estatísticos não podem observar com precisão. “Esse menino ou essa menina que usa a camiseta ‘100% virgem’, em contraposição, ou resposta, àqueles que envergam a estampa ‘100% negro’, o faz por escolha. Por uma opção livre e não porque o pai, ou a mãe, ou a igreja assim ordenou”, provoca.

Rivera concorda plenamente com a afirmação feita pelo filósofo Vladimir Safatle também em entrevista recentemente publicada pelo site do SINPRO (“estamos vivendo um tempo em que se costuma atribuir à falta de valores morais as razões de certas situações que, na realidade, têm origem socioeconômica”). E completa a reflexão propondo que, idealmente, a mídia deveria se pautar não pelos valores religiosos, como se eles fossem parte da solução dos problemas do mundo, mas pelos “valores humanos, que podem até se afinar com princípios religiosos, mas sem que essa associação seja obrigatória ou automática. Matar um semelhante é um valor humano. A religião pode até abraçar essa premissa, mas ela é, por princípio, um valor humano, laico”.

O que fica evidente na fala do pesquisador é que as religiões não são senhoras do monopólio da moralidade. E a pergunta que deveria então nortear quem estuda religião, quem estuda sociedade e quem divulga as pesquisas que tocam essas duas esferas seria: a quem interessa não dissociar valores religiosos dos valores humanos? Segundo o professor da Universidade Metodista de São Paulo, quando a gente puder discutir isso abertamente, o receio de um conservadorismo pré-moderno e ou de uma sociedade sem valores entrará em viés de baixa.

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