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O índio como tema

Elisa Marconi e Francisco Bicudo
Publicado em 8/9/2011

Parece pouco, mas ter um dia comemorativo pode representar impulso fundamental para que se consiga modificar a maneira como o índio é tratado e estudado pelos brasileiros. É com esse olhar otimista para uma temática tão delicada quanto ignorada que o historiador Pedro Paulo Funari, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), defende o 19 de abril, ainda que a data tenha sido criada pelo governo de Getúlio Vargas, na febre nacionalista da década de 1930. “É um dia apenas, mas se for bem aproveitado, dá para começar a reverter o modo injusto como tratamos nossos ancestrais e os indígenas do presente”, confirma.

Essa, aliás, é uma das conclusões estabelecidas pelo livro A temática indígena na escola: subsídio para os professores, do próprio Funari, em parceria com Ana Piñón. A obra é, de acordo com o autor, voltada para os atuais professores e futuros educadores, principalmente para aqueles que trabalham mais recorrentemente com as questões indígenas, como os de História, Geografia e Língua Portuguesa. O grande objetivo é ajudar a enfrentar – e a superar - a formação deficitária do docente em relação ao assunto. Dividida em quatro partes, a obra convida o leitor a conhecer inicialmente os detalhes do tema, explicitando “quem são os índios, a trajetória dos grupos, a diversidade cultural, étnica e de linguagem”.

O livro também retoma a como o índio vem sendo caracterizado no Brasil ao longo dos tempos. “No período colonial e no Império, a figura foi idealizada”, lembra o professor. A República é um momento de idas e vindas, de avanços e de recuos. “Na Primeira República, era algo negativo, porque o país viva uma fase de, digamos, conquista do Oeste. Já na Segunda República, a partir de 1945, há uma reconstrução, positivamente. E vale lembrar aqui a contribuição do trabalho dos sertanistas, como os irmãos Villas-Boas”. Na ditadura militar, conta Funari, há novamente um retrocesso nesse processo, por conta da interiorização e do ideal de Brasil Grande, e só a partir de 1985 são retomadas as políticas públicas de valorização do indígena. Para o pesquisador da Unicamp, mesmo com percalços, essa disposição para preservar e divulgar a cultura do índio permanece firme nos últimos governos, depois da redemocratização.

Pesquisa com alunos

Por fim, A temática indígena na escola: subsídio para os professores apresenta e analisa os resultados de uma pesquisa feita com cerca de 900 alunos de escolas públicas e privadas do Brasil, em relação à imagem do índio. Os dados coletados revelam que são confusas e imprecisas as informações que os entrevistados têm sobre o objeto estudado. “O que mais chama a atenção é que esses meninos e meninas localizam o índio como alguém distante no tempo e no espaço, totalmente não relacionado com essas crianças hoje”. São ideias distorcidas e vagas a respeito da origem dos grupos e das etnias, de quando chegaram à América e vindos de onde. “A maior parte dos alunos entrevistados acha que os índios chegaram ao Brasil em 1500, junto com os colonizadores portugueses”, revela Funari. O curioso é que já faz algumas décadas que os livros didáticos estampam que os índios ocuparam as Américas há cerca de 50 mil anos e dedicam, em geral, um capítulo à Pré-História brasileira, período que dá conta exatamente dessa origem dos indígenas. O diagnóstico dos historiadores é que, embora tenha havido de fato avanço na valorização da cultura dos grupos guaranis, tupis e outros, essa informação não chega à ponta, aos professores e alunos.

Ainda de acordo com o professor de História Antiga da Unicamp, essa lacuna entre a informação e a percepção está ligada justamente àquela sensação de distância no tempo e no espaço. “Os brasileiros sabem que eles existem, mas não têm noção real do que isso significa. Na pesquisa, por exemplo, a maior parte das crianças afirmava jamais ter visto um índio e, ao mesmo tempo, dizia que tinha parentes índios. Ou seja, a questão resvala numa certa percepção mitológica”. Também de forma geral, a ancestralidade e a herança genética passam ao largo de nossas lembranças. “A noção de que ter sangue indígena faz da pessoa uma indígena também não é recorrente”, sugere Funari. Aliás, a própria classificação de raça e cor que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) propõe em seus censos e levantamentos não é muito favorável a esse entendimento de que ser um pouco índio é ser índio também.

Afinal, importante lembrar, os questionários do IBGE permitem que o entrevistado declare sua cor como branco, preto, pardo (mistura entre brancos e negros), indígena ou asiático, sem contemplar outras miscigenações. “Vamos pensar no caso de uma pessoa que tem pais brancos, mas uma avó indígena. Como ela vai se declarar? Branca, porque não tem um similar a pardo, ou mulato, na classificação do IBGE, para os descendentes dos índios”, explica o pesquisador. Apenas mudar as respostas do questionário não resolveria a questão, mas certamente incentivaria que os brasileiros começassem a se reconhecer nessa figura do índio. No Censo do IBGE de 2002, apenas 0,5% da população se declarou indígena. E se a percepção fica muito aquém da realidade do país, as respostas dadas pelas crianças e apresentadas no livro A temática indígena na escola: subsídio para os professores não podiam mesmo apresentar outros dados muito animadores.

Formação do professor

Outra causa do desconhecimento que o livro aponta é a formação deficitária do professor que vai – ou ao menos deveria – trabalhar a temática indígena com os estudantes. “A universidade não prevê disciplinas obrigatórias sobre a história indígena, como já existe em relação à trajetória dos negros na África e fora dela”, alfineta o autor. “E se não teve a formação adequada, como o professor vai tratar o assunto na sala de aula? Num grande número de casos, ele pula o único capítulo que os livros didáticos comumente dedicam à pré-história e à sociedade indígena. Não é, portanto, culpa do educador. Ele simplesmente não foi preparado para abordar essa temática”.

A pergunta que nasce daí é: mas se há produção de conhecimento científico a respeito do universo indígena nas mesmas universidades em que os futuros professores serão formados, por que essas informações não chegam, não são ensinadas? Por que essa ponte, aparentemente tão simples, não é estabelecida? Por duas razões, segundo Funari. Como já foi dito, primeiro porque ainda não existem disciplinas obrigatórias a respeito desse tema nas graduações, o que teoricamente obrigaria os professores, atuais e futuros, a colher, processar, trabalhar e divulgar o conhecimento produzido a respeito dos indígenas. Depois, porque a parte mais significativa dos estudos sobre o assunto é desenvolvida nos cursos de graduação em Antropologia, que não têm licenciatura, ou seja, não formam professores de ensino fundamental e médio, reforçando o vício que a academia tem de produzir conhecimento e não conseguir difundi-lo para a sociedade.

No entanto, apesar do cenário nebuloso, Funari se diz otimista. Para ele, se o Estado trabalhar as políticas públicas para reforçar a identificação do brasileiro com o índio e para garantir o ensino desse assunto nas universidades, professores e escolas também terão condições então de fazer a situação avançar. “O educador ter o desejo de se informar e estar preparado para trabalhar as questões indígenas na aula é um passo importante”, ensina o historiador. “Se a escola apoiar também é possível promover uma aproximação entre a cultura indígena e os alunos. Levar as crianças no 19 de abril a uma aldeia, ou àquelas cidades próximas em que vivem índios urbanos, pode ser um bom começo. Convidar descendentes indígenas, como o escritor Daniel Munduruku, para visitas aos colégios também é outra saída. A grande tarefa é colocar em contato, trazer para perto”, conclui.

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