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Mini-Web

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo
Publicado em 18/10/2011

Atualmente, no Brasil, 8,3% da população de 191 milhões de habitantes são crianças, com entre 5 e 9 anos de idade. Esse número representa um universo de 15 milhões de pequenos brasileiros em processo de formação física, mental, emocional e de cidadania. Desse total, 51% já usam computador, e 27% acessam a internet. Vistas assim, ainda pelo viés apenas quantitativo, tais constatações já sugerem algumas reflexões. Contudo, a situação pede mais atenção ainda quando se qualifica o debate e se constata que 25% internautas-mirins já sentiram medo ou perigo ao navegar por sites, redes sociais ou trocar e-mails. Todas essas são conclusões reveladas por uma pesquisa desenvolvida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), entidade que reúne membros da sociedade civil, do governo e do empresariado e tem como propósito coordenar e integrar as iniciativas de serviços Internet no país.

O estudo que acaba de ser divulgado deriva de outra pesquisa, feita nos últimos seis anos pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br), vinculado ao CGI, que procura avaliar o acesso e o uso da rede mundial de computadores nas casas brasileiras por pessoas de 10 anos de idade ou mais. Com a coleta de dados, desde o início, os pesquisadores já sentiam falta de um olhar mais profundo sobre um público que já navega pela internet, mas ainda não era considerado, as crianças entre 5 e 9 anos de idade. O coordenador de pesquisas do CETIC, Juliano Cappi, explica que a motivação inicial do trabalho foi conhecer mesmo o acesso e o uso da web pelos petizes. No entanto, no decorrer do levantamento, os pesquisadores travaram contato com trabalhos semelhantes realizados na London School of Economics, que fica em Londres, na Inglaterra. E esse encontro mudou a história da pesquisa.

“O grupo britânico estudava especificamente a questão da segurança das crianças no uso da internet”, conta Cappi, “e resolvemos seguir por esse caminho também, porque até então ninguém tinha analisado o assunto com a profundidade que ele merece”. As equipes dos dois países firmaram um acordo de cooperação e começaram a aplicar aqui, na realidade brasileira, os parâmetros de medição de segurança na web que já vinham sendo trabalhados na terra da Rainha, com uma diferença: enquanto lá o público abordado tem mais de 9 e até 16 anos, aqui a faixa é de 5 a 9 anos.

Antes de revelar alguns dos principais resultados alcançados, Cappi detalha um pouco mais o levantamento. Trata-se de uma pesquisa quantitativa, amostral, realizada em todo o território nacional, inclusive em áreas rurais, o que não é muito comum. Foram ouvidas, de setembro a novembro de 2010, 2.516 pessoas em todo o país, entre adultos e crianças. “Uma dimensão importante da metodologia é que uma parte das perguntas a gente fazia para os pais e outra para os filhos”, conta o coordenador de pesquisas do CETIC, “não só porque a gente estava investigando o que a criança está fazendo na internet, mas também a relação do pai com o uso da web pela criança, se há mediação desse uso pelos pais”, completa.

Os resultados

Entrando mais nos resultados do estudo, Cappi aponta os grandes destaques. O primeiro é que 51% das crianças dessa faixa etária já usam o computador e, desse grupo, 27% acessam a internet. Embora para a maioria das crianças computador e internet sejam conceitos indissociáveis, a diferença nos dois números chamou a atenção dos pesquisadores e foi explicada da seguinte maneira: “As crianças entendem que computador e web são a mesma tecnologia, mas nessa fase da vida elas ainda não têm certas habilidades ou cognições para, por exemplo, conectar a internet. Elas não sabem ler, ou não decodificaram a linguagem do www”, lembra o coordenador. E, afinal, o que as crianças fazem na internet? “Elas jogam. A resposta “jogar” foi universal. Todas as faixas de idade, de renda, de localidade, todas as crianças usam a internet para jogar”, responde. “Ah! e as atividades escolares, pedagógicas, também são usadas da mesma maneira”.

Outro número relevante é a quantidade de crianças que utilizam alguma rede social, como Orkut, Facebook, Club Penguin etc... No grupo que acessa a web, 29% navegam nas redes sociais. “E isso é importante porque abre uma perspectiva completamente nova para a criança, que pode passar a estabelecer vínculos num ambiente novo, muito novo. Novo no sentido de que gerações muito próximas não tinham essa possibilidade”, levanta o pesquisador.

Mas, ao contrário do que possa parecer, os pequenos não chegam sozinhos às redes. Nas respostas das próprias crianças – quando os entrevistadores perguntavam quem ensinou você a usar a internet –, é o professor quem apresenta e quem ensina a usá-la. Certamente isso tem alguma relação com o fato de que, na cabeça das crianças, quem ensina alguma coisa é o professor, ou a professora, afirma Cappi e continua: “a criança tem a expectativa que, em algum momento, essa relação com a internet vá passar pelo professor. Quando se pensa em São Paulo, essa mediação pelo docente é bastante factível e pode ser pensada a curto prazo. Mas quando a gente olha para o todo do Brasil, ainda há muito o que fazer para estimular que o professor faça do computador e da internet instrumentos de suas atividades com os estudantes e esse é também um de nossos objetivos com a pesquisa”.

Desafio para os professores

Numa outra pesquisa realizada pela mesma equipe do CETIC, essa mais ligada à educação propriamente dita, os pesquisadores perguntaram aos professores o que eles viam como dificuldades para o uso da internet como integrante das atividades escolares. O primeiro dado relevante que apareceu, segundo Cappi, foi a percepção geral de que o aluno sabe mexer mais na internet que o professor, ao mesmo tempo que esse aluno espera que o docente ensine algo a ele. Acontece que, se, por um lado, o papel do educador é muito evidente no entendimento infantil, essa “responsabilidade” por ensinar o manejo da tecnologia pode deixar os educadores ressabiados e apreensivos.

O coordenador de pesquisas do CETIC explica que essas crianças são apresentadas ao computador e à internet desde muito cedo, são como nativos nesse universo. Já os professores não. Podem ser até fluentes, mas não nasceram imersos nesse mundo, foram – ou ainda estão – dominando aos poucos, por experiência própria. “Mais do que isso, um engano comum é o professor achar que trazer a internet para a aula é ensinar a criança a manejar aquela tecnologia e talvez não seja esse o caminho. Se for por aí, o professor vai se sentir muito perdido em ter de explicar algo que talvez ele domine menos que seu aluno”, provoca. A ideia é que o professor tem toda uma compreensão dessa ferramenta, dos usos, das possibilidades, dos limites e etc. que a criança não tem e precisa desenvolver. “Então o professor precisa aprender uma maneira de usar a internet sem entrar numa competição de quem sabe mais ou menos e sim de quem tem a compreensão mais global do que aquela ferramenta pode trazer de bom e de ruim, de benefício e de risco”, sugere o pesquisador.

E os desafios, de acordo com essa segunda pesquisa, são enormes. Ela mostrou, por exemplo, que as escolas públicas brasileiras têm em média 23 computadores, dos quais 18 funcionam. E alunos? Em média, 800 por escola, para dividir menos de 20 máquinas. Outra informação é que cerca de 80% das escolas têm um laboratório de informática, mas apenas 4% das salas de aula do Brasil têm computadores. O resto fica num recinto especial, separado da rotina dos alunos e dos professores. O que prova que, não obstante informática tenha virado uma disciplina, as escolas ainda encaram o computador e todas as suas possibilidades como assunto separado da aula, da vida. Porque no dia a dia, 51% dos brasileiros de 5 a 9 anos usam a rede mundial via computador (e não através de outros suportes como celulares, videogames e tablets) e, na esmagadora maioria, em casa. O que abre duas discussões: (1) o estranhamento que ela vai sentir ao notar que a escola – pelas razões já descritas – está apartada da situação comum que a criança costuma enfrentar, e que tem computadores e internet envolvidos; e (2) o papel do pai e da mãe na mediação desse uso, já que acontece preferencialmente no ambiente familiar e a proteção da criança aos riscos que a webnavegação oferece.

Sobre essa segunda constatação, Cappi sugere algumas reflexões. A primeira é que, quando se fala em mediação e proteção, na verdade, está se falando dos mesmos cuidados que um pai e uma mãe costumam ter com a criança no dia a dia. Na opinião do coordenador de pesquisas, a internet não é separada da vida, ela é um instrumento muito parecido com o que se encontra em casa, na rua, no bairro, na escola, etc. Por isso, “da mesma forma que os pais não vão deixar um menino de 5 a 9 anos sozinho, na Praça da Sé, às 23h, essa proteção vale para a internet”, ensina. Evidentemente, há riscos quando se utiliza a web. E até as crianças sabem disso.

Medo

Os pesquisadores perguntaram para os meninos e meninas se eles já sentiram medo, ou se correram perigo usando a internet. A resposta precisa ser avaliada com o entendimento que a percepção de medo e de risco para uma criança de 5, 6, 7, 8 ou 9 anos é diferente da percepção do adulto. De qualquer maneira, 25% dos entrevistados responderam que sim. Depois perguntaram se as crianças conheceram alguém pela internet e 13% disseram que sim. Quando questionadas se já haviam enviado fotos delas para alguém via web, 11% deram a resposta positiva. E, por fim, 6% das crianças disseram que já tinham sido alvo de brincadeiras e piadas pela web, das quais não tinham gostado.

Como Cappi alertou, as crianças não chegam ao computador e ao uso da internet sozinhas. O fazem de casa, onde deveriam estar sob os cuidados dos pais, ou da família. Mas não é bem essa a realidade que o levantamento apontou. Os pais foram questionados sobre as medidas de controle, restrição ou negociação no uso da internet e 20% responderam que não fazem nenhuma restrição. Os filhos dessas famílias usam a internet livremente, sem que os pais tomem nenhuma atitude em relação a isso. Além disso, 40% dos pais e mães responderam que conversam para tentar orientar os filhos no uso da web e nos cuidados que devem tomar, “o que significa que 60% não falam nada, não orientam, se omitem”, avisa Cappi, que continua: “34% dos pais controlam o tempo de internet, 65% não tomam nenhuma medida em relação a isso”.

Outros dados que o pesquisador acha relevantes: 31% dos pais ficam ao lado dos filhos enquanto eles navegam, 20% olham o histórico de navegação para saber por onde essa criança passeou e 15% usam a ferramenta de bloqueio de sites. Para concluir, o coordenador de pesquisas do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, lembra que não se trata de impedir a criança de usar a internet em casa ou na escola, mas sim de orientá-la a respeito do uso e de fazê-la compreender os benefícios e riscos dessa ferramenta. E que, para isso funcionar de forma a reduzir a exposição dos petizes aos perigos, pais e professores precisam assumir a posição de educadores – cada um no seu papel – mas devem atuar juntos, para ajudar os internautas-mirins a se desenvolverem plenamente e de maneira saudável e protegida.

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