SinproSP

Discutindo as notícias na hora da aula

Atualizada em 08/09/2004 17:10

O uso de meios de comunicação como recurso pedagógico vem transformando alunos e professores em cidadãos mais críticos

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Terrorismo. Chechênia. Juros e inflação. Arte. Museu do Ipiranga. Listados assim, esses assuntos são apenas os destaques da primeira página do jornal “Folha de São Paulo” da sexta-feira, dia 03 de setembro de 2004. Mas e se a eles forem acrescentadas algumas perguntas, tais como: quais as razões do terrorismo na Rússia? Quais os problemas que envolvem a disputa com a Chechênia? Como medir o impacto dos juros e da inflação na vida cotidiana? Arte-mural é arte? De que forma o Brasil pretende comemorar o 07 de Setembro e quais os significados contemporâneos da data? Quando analisados desta forma, buscando contextos, e debatidos em sala de aula, esses mesmos temas tornam-se aliados dos conteúdos programáticos das mais diferentes disciplinas escolares, e são capazes de contribuir com a formação de cidadãos mais críticos e inquietos com o mundo que nos cerca.

Nas escolas de São Paulo, vem crescendo o uso de jornais, rádio e televisão como subsídio e material pedagógico de apoio para todas as matérias. A razão que explica a adoção do que sai na mídia em sala de aula é quase óbvia: “A escola faz parte da vida, então deve tratar dos assuntos que são relevantes para a vida das pessoas”, destaca a jornalista e escritora Januária Alves. Especialista em meios de comunicação em sala de aula, ela lembra que o mundo vive a era da informação e da sociedade do conhecimento; assim, escolas, professores e alunos estão imersos nesse universo de notícias, programas e de assuntos tratados pela mídia. “Não dá para a escola fingir que o estudante não lê jornal, não assiste TV, não acessa a internet. A escola precisa estar atenta a isso”, afirma.

Coerência, programação e projeto pedagógico
Mas para que a adoção da mídia na sala de aula alcance os resultados esperados, é preciso coerência, programação, atenção a um projeto pedagógico. “Sem ele, o professor e o estudante tornam-se meros consumidores das notícias, e não é isso que desejamos”, reflete a jornalista, que é também editora do “Folha Educação” da Folha de São Paulo. Para ela, o resultado desejado quando as matérias ou os programas entram na sala de aula é que sirvam de instrumento para a formação de leitores críticos do mundo, capazes de entender, interpretar e analisar o que se passa à sua volta.

Nesse ponto, as chamadas trans e multidisciplinaridade do jornal, por exemplo, ganham destaque. Todos os dias uma gama enorme de assuntos ligados a quase todas as áreas do conhecimento aparecem publicadas. O Diário de São Paulo, também em 03 de setembro, tratava de religião, dívida do município de São Paulo, planos de saúde, rede municipal de ensino e morte de moradores de rua. Cada um dos tópicos renderia conteúdo suficiente para um bimestre. No caso da dívida do município, por exemplo, é possível fomentar a discussão em história, geografia e matemática. Já o assassinato do morador de rua pode resultar em excelente ponto de partida para debates nas aulas de história, geografia humana, sociologia, antropologia.

Postura crítica e criativa
Junto com os chamados focos múltiplos, é importante sempre manter a postura crítica e criativa, e não se deixar convencer muito fácil. “Não é porque saiu no jornal, ou deu no rádio, que uma notícia representa a verdade absoluta”, alerta Januária Alves. Um dos aprendizados esperados para alunos e professores é que percebam que cada veículo coloca a sua visão do fato relatado, e esse recorte representa uma série posições políticas, ideológicas, comerciais. “É até interessante que os educadores proponham a comparação da mesma notícia nos diversos meios. Isso vai ajudando a mostrar para o aluno que existem diversas versões possíveis para uma mesma história, e que é preciso discernir sobre todas elas”, sugere a editora.

Para que essa tarefa possa se concretizar, entram em cena a postura e o auxílio do professor. Para que ele mesmo não seja um refém das notícias, ou ingênuo diante do que a mídia relata, Januária sugere que seja um assíduo leitor de jornal, que ouça rádio e veja televisão com freqüência. Essa tarefa deve ser um hábito. Consolidada a visão crítica e consciente, é mais fácil e produtivo apresentar ao aluno o exercício mais adequado. Quando a relação se transforma em algo ainda mais próximo, dá até para tentar atividades inusitadas, “como o uso do jornal na pré-escola”, provoca a jornalista e escritora. Mas como se os alunos dessa faixa ainda não lêem? Sorrindo, Januária responde: “Começando por discutir a função dos meios, do jornal, da TV, do rádio e trabalhando com as figuras, as cores, mostrando as fotos e pedindo que os meninos inventem a notícia”.

Além de ler jornais, o mesmo projeto inspira os alunos a fazerem seus próprios jornais. Das notícias cotidianas da escola, como as provas e as atividades ligadas às diversas disciplinas, até os momentos de expressão cultural ou esportiva, como um canto de poesias ou um campeonato interno de futebol, os jornais internos vão ampliando a percepção dos meninos em relação à mídia. “Da escolha do tema a ser tratado à escolha do tom com o qual isso vai ser dito, passando pela confecção mesmo da peça, tudo acrescenta ao repertório dos estudantes uma visão crítica e consciente”, garante Januária. E o maior ganho, de acordo com ela, fica por conta da satisfação que dá ver o próprio material publicado e, melhor ainda, reconhecer e refletir sobre o caminho que foi preciso seguir para chegar até esse ponto.

Resultados compensadores
Para além do nascimento de estudantes mais críticos e conscientes, os outros resultados obtidos são tão ou mais recompensadores. O encontro com a mídia abre portas para professores e, principalmente, para estudantes. Ler jornal, por exemplo, incita a ler livros, a ver TV ou ouvir rádio, só para comparar as diferentes linguagens e matérias, ou por curiosidade mesmo. Os alunos ficam muito mais informados sobre tudo e, portanto, mais atentos. Quando comparam a leitura das notícias do dia ao conteúdo aprendido nas disciplinas, trazem para perto de si os assuntos e se envolvem muito mais. Criam um sentimento de pertence, de identidade, e por isso gostam muito mais de aprender. E tem mais: “Num mundo de intolerância – até bastante noticiada pela imprensa -, com guerra, terrorismo, violência e tal, comparar os diferentes, e aceitá-los como diferentes, começa a remeter a uma outra cultura, a cultura da tolerância e da paz”, almeja a jornalista.

Por fim, e talvez mais importante, ter no projeto pedagógico o contato com meios de comunicação obriga a escola a rever uma posição antiga e já inadequada para tempos atuais. “O colégio não deve ser mais o lugar das respostas”, coloca Januária Alves, “e deve ser o lugar onde os meninos aprendem o mais importante: fazer perguntas”. Não é à toa que essa é a função mais peculiar do jornalista.