Campanha salarial

Seis pontos sobre a farra publicitária da Fiesp e o prejuízo dos professores

Atualizada em 31/03/2016 15:17

Texto originalmente publicado na Fepesp

O Estadão apareceu amarelado, nesta terça-feira, 29/03. Eram os milionários anúncios da Fiesp – a entidade mantenedora das escolas do Sesi e do Senai clamando pelo impeachment da presidente Dilma. Folha de São Paulo, O Globo, Correio Braziliense, além dos sites desses jornais e de cinco mil bonecos infláveis, todos entraram na campanha milionária, que pode ter tido um custo estimado superior a 8 milhões de reais por apenas um dia de veiculação.

Essa extravagância violenta e autopromocional revela o lado podre dessa federação: enquanto a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo torra milhões fazendo política, ela nega qualquer aumento salarial aos professores, professoras e técnicos de ensino do Sistema S – alegando ‘falta de recursos’. Os oito milhões de reais desta campanha, se repartidos pelos sete mil professores do Sesi e Senai no estado de São Paulo, seriam o suficiente para um abono de mil reais por professor ou professora, por exemplo.

Essa desculpa esfarrapada, a de falta de recursos, associada ao assédio a seus professores nas salas de aula, tem uma história sombria, que contamos a seguir.

1. As reivindicações dos professores

Os professores e técnicos de ensino do Sesi e do Senai já estão debatendo crise, orçamento e campanha salarial desde o segundo semestre do ano passado. Em 2015, muito antes do início das tratativas salariais, uma onda de assédio moral e pressões variadas se espalhou pelas unidades de ensino do Sistema S. Com a alegação de queda de 30% na arrecadação em 2016 (algo perfeitamente assimilável ao orçamento, segundo o presidente nacional do Sesi, Gilberto Carvalho), cortes começaram a ser anunciados. Eram ameaças do fim do ensino integral a encerramento de unidades externas.

2. O Pato-Patrão

Do outro lado, um pato sinistro começava a dar seus primeiros passos. Um boneco inflável - plagiado da obra de um artista holandês - foi colocado na calçada da sede da FIesp na avenida Paulista com o mote da luta contra o aumento de impostos. Pato Skaf, presidente da Fiesp, encabeçou a campanha inicialmente de forma tímida: no site oficial do #NãoVouPagaroPato, nenhuma referência à Fiesp. O grande movimento representava, de acordo com seus organizadores, “todos os brasileiros”.

3. O milagre da multiplicação

Em poucos meses, o pato se multiplicou. Em São Paulo, filhotes foram colocados no Conjunto Nacional, localizado na mesma avenida, e no edifício Mario Covas, na rua Vergueiro. Trabalhadores foram chamados por seus patrões para a coleta de assinaturas. Em pouco tempo, o gigante amarelo passou a defender diversas causas: a luta contra crise à briga pelo fim da corrupção e, por fim, a fúria do impeachment.

É preciso enfatizar que desde o mês de fevereiro os professores e técnicos de ensino do Sesi e do Senai estão em campanha salarial, estão lutando pela manutenção e ampliação de direitos conquistados. Ou seja, enquanto os patos se avolumam em Brasília - foram 5 mil em apenas um dia (link) -, os trabalhadores do Sesi e do Senai tentam entender uma conta que não fecha: se há gastos exorbitantes na patifaria empresarial, por que seria tão complicada a garantia de um reajuste justo para a categoria?

Na terça (29/03), a página inicial do site do jornal O Estado de S. Paulo amanheceu pintada de amarelo e com os ditos do “impeachment já”. Propagandas pipocavam na abertura de matérias. Além do site do Estadão, as edições físicas dos jornais O Globo, Correio Braziliense e Folha de S. Paulo também traziam anúncios pró-impeachment.

4. O preço da marquetagem: R$ 8 milhões

Algumas contas foram feitas. Com base nas tabelas fornecidas por dois desses quatro veículos, a Folha e o Estado, o montante dos gastos nas edições impressas chegam a R$ 8 milhões. Lembrando: dados digitais não foram considerados nessa conta.

Questionar a grandeza do valor, entretanto, é válido. Afinal, não estão sendo consideradas, pela impossibilidade da exatidão, variáveis como descontos e acordos de permuta. Contudo, é imperativo olhar para os 5 mil patos de Brasília e para todas as propagandas que tomaram conta das redes e veículos em um só dia e perguntar: de onde vem esse dinheiro? Se são R$ 8 milhões, calculados em tabelas que têm a sua razão de ser, afinal, são o parâmetro que se apresenta para o anúncio nesses jornais, ou se a conta atinge a metade deste valor, a discussão é bem mais ampla: há confluência de interesses entre esses canais de comunicação e a batalha levada adiante por Pato Skaf e outros representantes do empresariado nacional? Como um discurso tão simplório - e de fácil adesão como o #NãoVouPagaroPato - pode ir se convertendo em diferentes causas?

5. Silêncio eloquente

Enquanto isso, os professores e técnicos de ensino do Sesi e do Senai seguem na luta por reajuste salarial, mesmo tendo passado a data base da categoria, que é o 1º de março. Nas várias rodadas de negociação entre a Federação dos Professores do Estado de Sâo Paulo e representantes do Sesi e do Senai, o representante da Fiesp se fez de mudo. Negou-se a discutir um reajuste salarial justo, argumentando falta de verba em um orçamento já comprometido. No entanto, mesmo negando reajuste aos seus professores, não faltou orçamento na Fiesp para os milhões gastos nas páginas amarelas e nos patos . O maquinário da Fiesp é um grande pato, que vem sendo usado conforme convém àquele que se diz seu dono.

6. Veja a conta

Anúncios de 6 colunas por 20 centímetros em 14 páginas. Com o detalhe que anúncios publicitários ou de opinião têm acréscimo de 100% no valor.

No Estadão, um anúncio de 6 colunas, em dias úteis, sai por R$ 6.882,00 o centímetro. A peça publicitária da Fiesp, de 6colX20cm, multiplicando por 14 páginas, sai por R$ 1.926.960,00.

No entanto, dobra por ser opinativo/publicitário: R$ 3.853.920,00.

Já na Folha, anúncios de 6 colunas saem por R$ 7.249,53 o centímetro. O anuncio da Fiesp, de 6colX20cm, multiplicando por 14 páginas, custa nada menos que: R$ 2.029.868,40. Com o detalhe de ser "Publicitário / Eleitoral / Opinião", atingimos o valor de R$ 2.029.868,40 x 2 = R$ 4.059.736,80.