Voz do professor

Pesquisa estuda fadiga vocal nos professores

Atualizada em 14/09/2016 15:20

Fabiana Zambon, fonoaudióloga e coordenadora do Programa de Saúde do Sinpro-SP, foi premiada no 15º Congresso da Fundação de Otorrinolaringologia, em agosto último. Seu trabalho - Fadiga vocal em professores e sua relação com a fadiga geral ao longo de um ano letivo - foi o terceiro colocado na categoria de Fonoaudiologia.

Nesta entrevista especial, ela descreve os resultados de sua pesquisa. Fala também do uso da voz no exercício docente e da necessidade de treinamento dos professores para reconhecer a fadiga vocal e prevenir alterações mais sérias.

Quando e como surgiu a ideia de fazer a pesquisa sobre a fadiga vocal dos professores?

O trabalho foi o meu projeto de doutorado. Pensando que a fadiga vocal é um sintoma comum em professores e pode variar de acordo com o uso e repouso da voz no ano letivo, pensamos em fazer um estudo que acompanhasse essa questão nesses profissionais durante um mesmo ano de trabalho.

Como os professores foram analisados no estudo?

Para a realização da pesquisa nós precisávamos definir em quais momentos os professores seriam avaliados, os momentos mais impactantes para a voz. Definimos então que as avaliações aconteceriam em quatro momentos: no começo do ano letivo, no final do primeiro semestre (antes do início das férias, após um semestre de uso de voz), logo após o inicio do segundo semestre (após o descanso da voz nas férias de julho) e ao final do segundo semestre, entre as duas primeiras semanas de dezembro (após esse período começam as recuperações e o uso regular da voz diminui).

Nós acompanhamos 102 professores durante um mesmo ano. Vale ressaltar que esses professores foram divididos em dois grupos, um com queixa e o outro sem queixa de voz.

A ideia principal da pesquisa era investigar a fadiga vocal, que é uma das queixas mais frequentes do professor. Para isso, nós utilizamos em todas as avaliações um protocolo americano (que foi traduzido e adaptado pata o português brasileiro) que investiga sintomas de fadiga vocal.

Associado a isso, nós também investigamos em todas as avaliações quatorze sinais e sintomas gerais de voz como: rouquidão, cansaço vocal, dor na garganta, dificuldade para projetar a voz, entre outros. As vozes dos professores foram gravadas e, posteriormente, analisadas, para verificarmos a presença de alguma alteração vocal. Além disso, os professores autoavaliaram suas vozes, classificando-as como: excelente, muito boa, boa, razoável ou ruim e responderam um protocolo que investigou fadiga geral (mental e física).

Quais foram os resultados que a pesquisa apontou?

Sempre que um pesquisador faz um estudo, ele espera um determinado resultado, de acordo com a sua experiência clínica. Nós achávamos que a fadiga vocal aumentaria ao final dos semestres de trabalho, após o uso acumulado da voz. E não foi o que aconteceu. Analisando os dados foi possível observar que não houve mudança na sensação de fadiga vocal durante todo o ano. Além disso, os professores apresentaram menores valores no questionário de fadiga vocal em relação aos indivíduos com problemas de voz encontrados na literatura, logo a fadiga vocal não foi tão alta.

Outro dado encontrado foi que os escores apresentados pelos professores no questionário de fadiga geral (física e mental) foram compatíveis aos dos indivíduos que apresentam fadiga regular e não crônica.

Um dado interessante foi que os professores que apresentam queixa de voz relataram no inicio do ano, em média, 4,5 sinais e sintomas de um problema de voz (de 14 investigados), porém, após as férias de julho reduziram esses sintomas pela metade. Esse dado pode mostrar que no começo do ano o professor sente um maior impacto vocal.

Muitos dos professores avaliados apresentaram leves desvios de voz, que se mantiveram durante o ano. Porém, é curioso que os professores autoavaliaram suas vozes, em todos os momentos, como boas ou muito boas. Esse dado reforça o quanto é importante que esse profissionais recebam treinamento para reconhecerem uma alteração de voz precocemente.

O cansaço mental influenciou na fadiga vocal?

No estudo nós fizemos uma correlação entre fadiga vocal e todos os outros aspectos investigados. Os únicos aspectos que não tiveram relação com a fadiga vocal foram o desvio de voz (logo, ter uma voz alterada não aumenta a sensação de fadiga vocal) e a fadiga mental somente após as férias de julho.

É comum o professor sentir fadiga vocal e continuar trabalhando normalmente?

Não só fadiga, mas também alterações de voz. Dificilmente o professor da rede privada se afasta do trabalho, então ele continua trabalhando mesmo com queixas de voz. Além disso, por não terem treinamento vocal durante a formação profissional, muitas vezes os docentes só procuram orientação quando estão com uma alteração de voz instalada. O ideal seria que esses professores tivessem treinamento de voz e comunicação já na formação.

Nas ações do Programa de Saúde Vocal do SINPRO-SP nós sempre orientamos os professores a realizarem uma avaliação de voz, mesmo sem sentirem nada, para prevenir, pois muitas vezes os docentes só nos procuram quando o problema já está muito evidente.

Quais problemas a fadiga vocal pode acarretar?

A fadiga vocal pode gerar um incomodo para o professor, pode deixar a voz mais monótona, o professor pode terminar o dia sem vontade de falar, ele pode ter sensações desagradáveis ao falar, como dor e irritação na garganta. Além disso, a fadiga vocal é um sintoma que pode denunciar um abuso de voz, um esforço muscular excessivo, e quando o professor termina o dia de trabalho sentindo cansaço vocal é importante que ele utilize recursos para recuperar a voz. Esses recursos podem incluir um uso de voz mais econômico, exercícios de voz (sempre realizados com orientação fonoaudiológica), descanso vocal e geral, entre outros.

O importante é que os docentes recebam treinamento para reconhecerem os sintomas da fadiga vocal, o que colaborará com a prevenção de uma alteração de voz.