Educação

Invasões de aulas online se espalham e constrangem alunos e professores

Atualizada em 31/05/2021 20:26

Jornal Folha de S. Paulo, em 29 de maio de 2021

Thiago amâncio

No último 20 de maio, para comemorar o Dia do Pedagogo, o professor Moacir Castro convidou uma outra professora para falar aos seus alunos de licenciatura em letras sobre educação e direitos humanos.

O evento aconteceu pela internet, como todas as aulas no período da pandemia, e o link para acessar a sala, no Google Meet (plataforma de videochamadas), foi publicado no Facebook, para quem quisesse acessar.

E acessaram: no meio da conversa sobre a importância de incluir grupos marginalizados, desconhecidos entraram na aula, mudaram o nome para o de uma das aulas na sala, exibiram imagens nonsense e pornográficas e conseguiram interromper o evento.

Invasões como essa tem sido comuns durante a pandemia, quando esses encontros passaram a ser remotos, e chegaram até ao ministro Paulo Guedes (Economia) na última quinta-feira (27), quando um grupo entrou em uma reunião virtual do político com empresários que acontecia pela plataforma Zoom e exibiu imagens pornográficas.

Na aula do Dia do Pedagogo, havia mais de 50 pessoas na sala. Depois de cerca de uma hora de conversa, um som diferente começou a vazar.

"Como no começo da aula eu havia passado uma música, estava com uma janela do YouTube aberta e achei que pudesse ter clicado em alguma coisa sem querer", diz Moacir Castro, o professor.

Essa também foi a reação dos alunos. "Eu primeiro fui ver se tinha aberto alguma janela, depois fui avisar no grupo de Whatspp que alguém estava com o som vazando. E alguém falou: 'Acho que é invasão'", diz Vitória Lovato, 34, uma das estudantes.

De repente, na sala virtual, começaram a tocar uma música que fez sucesso recentemente no aplicativo Tiktok, cujo refrão diz "Dani senta com carinho, só não pode se apaixonar" e exibiram um vídeo com a coreografia.

A ação continuou: a tela começou a exibir uma montagem com os personagens Chaves e Seu Madruga se beijando junto de falas pornográficas, gemidos e trechos de desenhos animados, culminando em montagens do presidente Jair Bolsonaro usando maquiagem.

O professor expulsou reiteradas vezes os invasores da plataforma, mas eles continuaram entrando sem parar na sala.

"Foi muito significativo numa aula celebrando o Dia do Pedagogo, em falas sobre educação inclusiva e igualitária, isso acontecer. No começo, parecia uma intervenção mal educada, em tom de piada, como o aluno que joga bomba de fedor no fundo da sala. Depois ganhou uma conotação política", diz Lovato, que há 14 meses participa de aulas, conferências e outros eventos pela internet e classifica a situação da educação à distância como precária.

Para o professor Moacir Castro, "desrespeitado é a palavra mais precisa" para definir como se sentiu. "Um desrespeito com a pedagogia, com a educação, com os direitos humanos."

Ele lembra que as invasões sempre aconteceram em eventos do tipo. "Quem trabalha com direitos humanos está acostumado a grupos invadirem o auditório, colocarem faixas, fazerem perguntas só para tumultuar. A prática só foi adaptada", resume.

O estudante Tiago Oliveira, 22, que faz ciências sociais na Universidade Federal do Amazonas, sugeriu à instituição que os alunos tivessem acesso a um email com domínio da universidade. Desse modo, nas aulas online, os professores só autorizariam alunos com email institucional —o que ainda não foi acatado pela universidade.

A ideia surgiu depois que uma aula do curso foi invadida no último mês. "Em poucos segundos, uma outra pessoa começou a compartilhar a tela e exibiu a imagem de uma moça fazendo sexo oral. Abriram o áudio e começaram a mandar o professor sair da sala. Fiquei bastante assustato porque fiquei com medo de eles invadirem meu computador", diz.

Bruna Martins, coordenadora de incidência na Data Privacy Brasil, explica que os links das aulas, geralmente enviados a alunos ou endereçados a uma lista específica, acabam caindo nas mãos de grupos especialistas em "mineirar" esses eventos e achar brechas por onde invadir.

"A internet tem um papel de socialização do conhecimento que é muito importante. Quem faz essas invasões vai de encontro a esse princípio", diz.

Martins foi ela própria vítima de uma dessas invasões no começo da pandemia, em uma conferência global para discutir justamente internet. Nos primeiros encontros, os links estavam públicos, mas depois que algumas invasões aconteceram precisaram restringir o acesso.

Folha acompanhou alguns desses grupos na última semana. Não é difícil encontrá-los em aplicativos como Telegram —muitos são abertos ao público— e a função principal basicamente é compartilhar o link de reuniões virtuais e incentivar os participantes a invadirem.

A reportagem encontrou grupos que se comunicavam em inglês, hebraico, hindi (Índia) e russo, de diferentes tamanhos, desde poucas dezenas de pessoas até 1.500 participantes.

Nos especializados em invadir reuniões no Zoom, além do link são compartilhadas senhas para acessar as aulas. Outra prática comum é mandar uma lista com os nomes de quem está na aula, para que o invasor assuma uma dessas personalidades e se passe por um estudante, podendo inclusive enviar pornografia no nome dessa outra pessoa.

A reportagem identificou ainda um robô para o qual, anonimamente, é possível enviar o link de uma reunião virtual, que então espalhao endereço em um grupo com cerca de 1.500 pessoas.

Para evitar isso, Bruna Martins sugere não enviar o link aos participantes do evento com muita antecedência, enviá-lo apenas a grupos específicos, colocar senha nas reuniões online, controlar quem pode entrar na sala e bloquear o compartilhamento de tela, quando for possível, como no caso do Zoom.

Outra possibilidade é fazer eventos em uma plataforma de videochamada com número restrito de participantes e exibir a conversa em uma transmissão no YouTube, por exemplo. Essas soluções tem efeitos colaterais, no entanto, porque reduz a interação e impede que os eventos tenham grande alcance, diz ela.

Foi o que o professor Moacir Castro precisou fazer. "Fiz outro evento depois e avisei que quem quisesse o link deveria me pedir por mensagem privada. O número de participantes foi bem menor, mas a audiência pelo menos foi mais qualificada, já que não exibiram pornografia nem interromperam a aula", diz.

 

CUIDADOS EM REUNIÕES, AULAS E EVENTOS ONLINE

  • Não publique em canais abertos o link para o evento
  • Envie o endereço de acesso ao grupo participante com pouca antecedência, para evitar vazamentos
  • Dê preferência a plataformas com senha e onde é possível bloquear o compartilhamento de áudio e tela, como Zoom
  • Se não for possível remover o invasor, encerre a reunião antes que ele possa assediar outros participantes ou exibir mensagens pornográficas
  • Se a interação com outros participantes não for fundamental, troque a videoconferência por uma transmissão ao vivo em outras plataformas, como o YouTube