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A história nas bancas de revista

Atualizada em 11/03/2004 10:37

Reportagem de Francisco Bicudo

Napoleão Bonaparte, Chica da Silva, Frei Caneca, Carlos Gomes, a campanha “o petróleo é nosso”, a cultura africana, o Império Romano e os segredos da KGB – o temido serviço secreto da ex-União Soviética – são alguns dos personagens e temas que já podem ser encontrados mensalmente nas bancas de jornais. Lançadas em novembro do ano passado, e alcançando em fevereiro a quarta edição, as revistas “História Viva” e “Nossa História” chegam para preencher uma antiga lacuna do mercado editorial nacional. Elas mostram que o brasileiro gosta – e muito mais do que se imaginava – de História e colocam à disposição dos professores que trabalham com a disciplina um significativo material de documentação, análise e referência, que pode ser usado em sala de aula. “É um movimento saudável, capaz de oferecer aos alunos textos atualizados e mais acessíveis do que os documentos acadêmicos”, afirma Daniel Helene, professor de História da Escola da Vila. “O sucesso das publicações mostra que a sociedade, apesar de toda a crise, quer se entender melhor”, completa.

O lançamento quase simultâneo das duas revistas foi uma feliz coincidência. Mais interessante ainda é que, mesmo sem combinações prévias, elas acabam se complementando, e quem sai ganhando é o leitor. Sem perder de vista os temas nacionais, “História Viva”, produzida pela parceria Duetto Editorial/Ediouro, trata majoritariamente de assuntos de História Geral, com direito inclusive à reprodução de matérias veiculadas pela revista francesa “História”, uma das mais antigas na área. Em fevereiro, o destaque de capa foram os segredos da KGB; também reportagens sobre a origem dos etruscos, Joana D’Arc, reforma urbana no Rio de Janeiro e o nazista Klaus Barbie. A proposta de “Nossa História” é lançar um olhar específico sobre assuntos e personagens da História do Brasil. Com tiragem atual de 70 mil exemplares (a edição de estréia saiu com 50 mil), foi idealizada pela Editora Vera Cruz, em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional. “O sucesso e o estouro de vendas nos surpreenderam”, admite Luciano Figueiredo, editor da revista. A edição de fevereiro, por exemplo, teve como assunto principal os sambistas cariocas que driblaram a censura do Estado Novo varguista. E ainda uma entrevista com o empresário e bibliófilo José Mindlin.

Proposta editorial
A proposta editorial de “Nossa História”, detalha Figueiredo, é procurar estabelecer um estreito vínculo com as universidades e os pesquisadores, em busca de pautas interessantes e relevantes e de novas abordagens sobre temas já consolidados, abrindo espaço para que o conhecimento possa pular os muros dos “círculos iluminados” e chegar até o grande público. Na tentativa de bem cumprir esse desafio, o editor afirma que dois movimentos são feitos: além da preocupação de estampar nas páginas da revista as pesquisas e trabalhos mais recentes desenvolvidos na academia (pautas que nascem de “fora para dentro”), a equipe se esforça para convidar especialistas para escrever sobre assuntos que possam ser discutidos sob enfoques e pontos de vista criativos e originais (são as pautas que surgem de “dentro para fora”). Para o editor, o projeto gráfico, inspirado na estética do livro, é outro diferencial da revista. “Há uma preocupação intensa com a pesquisa e o tratamento de imagens. Somos privilegiados, pois temos acesso ao ‘modesto’ acervo da Biblioteca Nacional”, brinca. Quando o tema exige mais espaço e profundidade, “Nossa História” publica dossiês especiais, como aconteceu em janeiro, com os 450 anos da cidade de São Paulo, e deve ocorrer novamente em abril, com os 40 anos do golpe militar. “História Viva” segue caminho parecido e trabalha com edições temáticas especiais. A primeira esteve nas bancas em dezembro do ano passado – e, aproveitando a ocasião, tinha Jesus Cristo como personagem em destaque.

Para os professores de História, o banquete é mais do que atraente. Com textos acessíveis, mas que procuram manter o compromisso de análise e profundidade de informação, o trabalho em sala de aula ganha apoio, riqueza e consistência. E torna-se mais fácil e estimulante. Daniel Helene diz que uma das propostas pedagógicas mais interessantes a ser desenvolvida com alunos do ensino fundamental é a análise da iconografia, já que as revistas são bastante ilustradas. “É uma porta de entrada para muitos estudos na escola”. Leituras e interpretações de textos também devem ser incentivadas, chamando a atenção dos estudantes para as características principais de cada artigo ou reportagem, a maneira como o autor encadeia as idéias e constrói seus argumentos, até se chegar ao requinte de comparar textos acadêmicos com os jornalísticos. No ensino médio, com mais maturidade, é possível identificar possíveis falhas e problemas de interpretação histórica.

Risco de simplificação
Apesar de elogiar as duas revistas, o professor da Escola da Vila diz que há cuidados que devem ser redobrados. Ele ressalta que, em algumas situações, quando é feita a passagem da linguagem histórica para a jornalística, acontece uma simplificação – nem sempre verossímil – do tema abordado. “Às vezes, falta preocupação com a precisão, com a documentação e com a pesquisa histórica”. Ele reforça: não é esse o caso de “Nossa História” e de “História Viva”. Mas lembra que já ficou bastante decepcionado por encontrar alguns problemas sérios em outras revistas de divulgação com proposta semelhante. “Recentemente, li uma reportagem que tratava dos homens na Pré-História. Havia uma riqueza de detalhes de como se vestiam, de como brigavam, de seus comportamentos e motivações. Mas é impossível saber ao certo se isso tudo acontecia mesmo daquela maneira. O máximo que conhecemos a respeito são hipóteses, impressões, sugestões”.

Atenta a essa armadilha e disposta a superá-la, “Nossa História” procura trabalhar com a parceria bastante afinada e sintonizada de jornalistas e historiadores. “É quase uma simbiose”, define Figueiredo. Assim que os artigos e matérias escritos pelos colaboradores chegam à redação, passam imediatamente pelas mãos dos editores, que atuam justamente para traduzir o material para uma linguagem acessível ao público leigo, sem perder o rigor científico e a identidade autoral. Figueiredo diz que o bate-bola e a troca são intensas. “O conhecimento do historiador se junta à simplicidade e à objetividade do jornalista. São dois olhares distintos, reunidos em um único texto”. Para ele, o resultado final, por mais trabalhoso que seja o processo, é, além de necessário, mais do que compensador. “Garante-se não apenas a qualidade e a profundidade das informações transmitidas, mas também o prazer e o encanto pela leitura”.

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