Estreia do SinproSP Entrevista fala sobre envelhecimento com Muna Zeyn
O Brasil está envelhecendo a passos largos, redesenhando sua pirâmide etária e enfrentando um dos maiores desafios demográficos de sua história recente. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com 60 anos ou mais já ultrapassa a marca dos 32 milhões de pessoas, o que representa cerca de 15,6% dos brasileiros. As projeções apontam que, nas próximas décadas, esse percentual deve dobrar, consolidando uma transição demográfica que exige respostas rápidas e estruturadas do Estado e da sociedade civil.
A realidade de como vivem esses milhões de idosos é heterogênea e marcada por profundas desigualdades socioeconômicas. Enquanto uma parcela desfruta de uma velhice ativa, saudável e financeiramente estável, a grande maioria enfrenta a vulnerabilidade cotidiana. Muitos idosos continuam no mercado de trabalho informal para complementar a renda, enquanto outros vivem em situação de isolamento social ou dependem inteiramente do suporte de familiares que, frequentemente, não possuem estrutura financeira ou psicológica para oferecer os cuidados necessários.
No campo dos direitos, o Brasil dispõe de um arcabouço legal robusto. O Estatuto da Pessoa Idosa, promulgado em 2003, é o principal pilar jurídico que assegura direitos fundamentais como prioridade no atendimento, transporte gratuito e proteção contra a violência. Na esfera social, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a Previdência Social funcionam como redes de segurança financeira cruciais. Além disso, a Política Nacional do Idoso visa promover a autonomia e a integração dessa população, garantindo o direito à dignidade.
Contudo, a distância entre o que está previsto na lei e a prática cotidiana revela os grandes desafios atuais. O principal gargalo reside na saúde pública: o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta dificuldades crônicas para se adaptar às demandas da geriatria, faltam remédios de uso contínuo e as filas para consultas especializadas são longas. A carência de cuidadores capacitados e de instituições de longa permanência públicas (asilos) agrava o cenário, sobrecarregando as famílias mais pobres.
Para além da saúde, o urbanismo e a previdência completam o rol de urgências. Cidades repletas de barreiras arquitetônicas impedem o direito de ir e vir com segurança, resultando em quedas e isolamento. Diante de uma população que aumenta a cada ano, o grande desafio do Brasil contemporâneo é transformar o envelhecimento em uma etapa de celebração e dignidade, e não de punição, garantindo que o bônus demográfico do passado não se transforme em uma crise humanitária no futuro.
SinproSP Entrevista com Muna Zeyn
Conversamos com Muna Zeyn, assistente social, ativista da causa feminista e autora do livro “EnvelheSer”. Ao longo de sua trajetória, participou de iniciativas ligadas à proteção de populações em situação de vulnerabilidade social e aos direitos das mulheres e dos idosos.
Com forte influência de sua experiência profissional e militância, Muna narra “EnvelheSer” a partir da escuta de histórias reais. A leitura propõe uma reflexão sobre o envelhecimento, questionando os estigmas ligados à velhice e defendendo o direito à identidade em qualquer fase da vida.
A obra aborda temas como etarismo, invisibilidade social, saúde mental, sexualidade, autonomia e dignidade da pessoa idosa, especialmente das mulheres. O prefácio é da deputada Luiza Erundina, de quem Muna é chefe de gabinete na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Na entrevista tivemos a oportunidade de abordar temas como o conceito de envelhecimento ativo - o foco do bem-estar na terceira idade, desmistificando a ideia de que velhice é sinônimo de passividade ou doença. Falamos de saúde mental e o fantasma do isolamento; abordamos a dimensão psicológica e emocional, que é tão importante quanto a saúde física.
Tratamos também do papel da tecnologia e novas linguagens para estimular o debate sobre inclusão digital, plasticidade cerebral e novas formas de comunicação. Da questão da estrutura familiar versus independência, pois a dinâmica familiar e os cuidados práticos do dia a dia são temas muito sensíveis para quem convive com idosos. Além, é claro, do desafio de ampliar o olhar para o aspecto social e de políticas públicas, cobrando soluções sobre a infraestrutura das cidades.
Assista a entrevista.